Futuro do petróleo depende mais da tecnologia do que das reservas, avaliam especialistas no Zoom Debates

Futuro do petróleo depende mais da tecnologia do que das reservas, avaliam especialistas no Zoom Debates

O lugar do petróleo na economia brasileira, em um momento em que o mundo amplia o uso de fontes renováveis, foi o tema do episódio exibido na terça-feira (20) do Zoom Debates, podcast produzido pela TV Zoom e mediado pelo presidente da ACIANF (Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Nova Friburgo), Roosevelt Concy. Participaram da conversa o geólogo Guilherme Estrella, ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobras no período da descoberta comercial do pré-sal, e o engenheiro Grazione de Souza, doutor em Engenharia de Reservatórios e professor da UERJ.

O debate partiu de uma aparente contradição. Enquanto a transição energética avança, com a expansão dos carros elétricos e os investimentos em novas fontes, o Brasil alcançou a marca de 6 milhões de barris de óleo equivalente por dia, com mais de 82% da produção vinda do pré-sal. Para os convidados, a expressão “fim da era do petróleo” não se refere ao esgotamento das reservas, e sim a uma mudança nos padrões tecnológicos e de consumo. “A Idade da Pedra não acabou por falta de pedra. Acabou porque teve as mudanças tecnológicas”, afirmou Grazione de Souza. Na avaliação do pesquisador, o país e o mundo caminham para uma matriz mais diversificada, na qual o óleo e o gás natural seguirão com peso relevante nas próximas décadas para atender à demanda crescente por energia.

Guilherme Estrella relacionou a história do desenvolvimento industrial às disputas pelo domínio das fontes de energia e destacou que o Brasil tem uma das matrizes mais equilibradas entre as grandes economias, com cerca de metade de origem fóssil e metade renovável. O geólogo apontou, no entanto, que o consumo de energia por habitante no país está abaixo da 60ª posição no ranking mundial. “O consumo de energia per capita reflete condições sociais da população”, disse. Segundo ele, para alcançar um patamar econômico e social compatível com sua população e seus recursos, o Brasil precisa chegar, nas próximas décadas, ao consumo de 10 milhões de barris de óleo equivalente por dia.

Os convidados também detalharam as condições que tornaram a Petrobras referência na exploração em águas profundas e ultraprofundas. No pré-sal, a extração enfrenta lâminas d’água de cerca de 2 mil metros, espessas camadas de sal com comportamento plástico, reservatórios em rochas microbialíticas, até então inéditas na indústria, e volumes elevados de gás carbônico, que precisa ser separado e reinjetado. “Os desafios são maiores: CO2, questão plástica da camada de sal, profundidade, distância do continente”, explicou Grazione. A superação desses obstáculos, de acordo com os convidados, resultou de investimentos em pesquisa no Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes) e em universidades brasileiras, com uso intensivo de modelagem computacional para reduzir riscos financeiros e operacionais.

Entre as perspectivas para o setor, foram citadas a otimização dos campos maduros da Bacia de Campos e o estudo de novas fronteiras de exploração, como a Margem Equatorial. Grazione defendeu o incentivo à formação de jovens nas áreas de exatas e engenharia. “Você não tem um país desenvolvido que não tenha um cenário expressivo nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Se a gente não tiver mais profissionais nessas áreas, nós vamos sempre estar dependentes, sempre a reboque da história”, afirmou. 

O episódio completo está disponível no canal da TV Zoom no YouTube e no Spotify. O Zoom Debates tem episódios inéditos toda terça-feira, às 22h.